As perguntas que jaziam em nós...

Se nós realmente ficarmos juntos — e eu disse realmente porque o irreal também nos ficou, e por um tempo foi o irreal que nos sustentou — eu penso que a nossa história já terá nascido de um jeito que não sei nomear ainda. Nomear mata um pouco. Deixa eu não nomear por enquanto.

Bonita não é a palavra certa. Mas é a palavra que tenho.

E há momentos em que a palavra errada dita com honestidade chega mais perto da verdade do que a palavra certa dita com pressa.

Bonita não porque foi perfeita. Bonita porque não nasceu pronta. Bonita porque foi viva.

E as coisas vivas têm irregularidade, têm o cheiro de coisa que ainda não está pronta. O que houve entre nós tinha pulso.

Talvez as coisas mais verdadeiras sejam assim: não chegam fazendo alarde. Chegam perguntando.

 Às vezes fico pensando como vamos responder quando alguém perguntar como foi. E percebo que a pergunta já me faz gaguejante por dentro, porque você não aconteceu do jeito que se escolhe uma fruta no mercado, com critério, com razão, com lista.

Você aconteceu.

Não, isso também não é certo.

Foi mais parecido com o modo como a gente envelhece: sem perceber, até perceber de uma vez.

 Havia entre nós uma interrogação.

Ela não gritava.

Ela permanecia.

Era uma pergunta deitada no meio da conversa, uma pergunta respirando baixo. E tem diferença entre o que grita e o que fica. O que grita quer atenção. O que fica quer resposta.

Essa pergunta ficou em mim nos momentos errados. No meio de outra conversa. No meio de uma tarefa. No meio de mim mesmo, que já é lugar bastante complicado para se estar.

Será que é você? Será que sou eu? Será que somos nós? Será que é só amizade? Será que estou me confundindo?

Porque quando se gosta de alguém de verdade — e estou chamando de verdade aquilo que não traz vantagem nenhuma imediata, aquilo que só complica — a pergunta nunca é só sobre o outro. É sobre quem você descobre que é quando o outro te olha sem piscar.

Eu não sabia quem eu seria diante de você.

E isso me assustou de um jeito que eu gostei.

O susto que não foge. O susto que senta.

 Os dois pensaram, em algum momento, que talvez fosse o outro quem estivesse mais perto do sentimento.

E nenhum dos dois se negou.

Essa frase me fica.

Porque a negação seria fácil. Eu conheço a negação; somos conhecidos de longa data. Sei como ela funciona: você pega o sentimento ainda pequeno, antes de ele ter nome, antes de ele ter força, e diz — não é isso. E o sentimento acredita por um tempo. Até que não acredita mais. E aí já cresceu demais, e você chama de obsessão aquilo que poderia ter sido amor se não tivesse tido tanto medo de amor.

Não fizemos isso.

Poderíamos ter fugido. Poderíamos ter colocado uma razão na frente do sentimento, uma prudência na frente da abertura, o humor como álibi para o flerte. Poderíamos ter diminuído o que começava para não ter que responder por ele.

Mas não.

Nenhum de nós levantou barreiras antes da porta.

Não porque fôssemos descuidados. Mas porque havia algo em você que o sistema não reconhecia como ameaça. Você não chegou como perigo. Chegou como pergunta. E eu nunca aprendi a me defender de perguntas. Só de certezas alheias que tentam entrar como se fossem minhas.

 Gostar de alguém, antes de ser encontro, é espelho.

E espelho não mostra apenas o rosto. Mostra também o susto de existir.

Eu me vi.

Não inteiro.

Não a parte arrumada que mostro.

A outra. Aquela que fica de costas nas fotografias, que só aparece quando o silêncio é alto demais e você não tem mais forças de se fazer menor do que é.

Essa parte de mim apareceu diante de você.

E você não saiu correndo.

Isso também carrego.

 O que houve entre nós não nasceu do flerte. O flerte tem um brilho particular: o brilho de coisa que sabe que é temporária e quer ser bonita enquanto dura. O que houve não tinha esse brilho. Tinha outra coisa. Tinha o peso das coisas que não precisam se enfeitar porque não estão tentando impressionar: estão tentando ser.

Não nasceu da carência também. E aqui preciso ser honesto, porque a honestidade é o único material que presta para construir algo que dure. A carência é uma artesã eficiente — faz coisas que parecem amor de longe.

Mas você não era produto da minha solidão.

Você era presença, não preenchimento.

Foi como lançar uma luz e descobrir que havia espaço. E semeamos nesse espaço, sem intenção.

Foi como dizer, sem dizer: há em você um lugar onde algo meu respira. Algo que não respirava mais antes.

E talvez tenha sido isso o mais estranho e o mais bonito: eu me aceitava um pouco em você, enquanto aceitava você dentro de mim. Não como quem perde a própria forma, mas como quem descobre que a própria forma não termina exatamente onde imaginava.

 Há pessoas que nos diminuem.

Já morei em pessoas que me diminuíam e não sabia; achava que era o meu tamanho natural.

Há pessoas que nos distraem.

São gentis à sua maneira. Passam a mão na cabeça enquanto nos fazem esquecer que temos cabeça.

Há pessoas que apenas passam.

Mas há pessoas — e são raras, são a exceção que confirma e perturba — há pessoas que nos devolvem a nós mesmos com uma pergunta nova. Que nos encontram no meio de nós e dizem, sem dizer: você é maior do que estava sendo.

Você foi, para mim, essa pergunta.

Não a resposta. A pergunta. E prefiro isso. Resposta fecha. Pergunta abre. Eu quero continuar aberto para você.

E talvez eu tenha sido, para você, uma pergunta também. Isso só você poderá dizer.

 Nós não começamos pela conclusão. Começamos pelo não-saber — que é um lugar desconfortável, mas verdadeiro. Um lugar de onde ainda se pode ir a qualquer direção. A lógica me cobrava documentos, prazo de validade, prognóstico. Afinal, o que é isso? Para onde vai? E eu não sabia responder, e ficava com pena da lógica — tão acostumada à clareza, tão mal-equipada para o essencial.

Paramos diante da pergunta.

E talvez isso tenha sido o nosso primeiro gesto de cuidado.

As perguntas que fazíamos um ao outro eram importantes. Mas as perguntas que jaziam em nós eram ainda mais fundas. Porque, no fundo, minha linda, ninguém pergunta ao outro apenas “você me quer?”. A pergunta verdadeira talvez seja outra: “você me vê sem me reduzir?”.Você consegue tocar minha vida sem arrancar de mim a minha verdade?”. “Você pode entrar sem destruir?”. “Você pode ficar sem prender?”. “Você pode amar sem me apagar?”.

E talvez, sem saber, nós estivéssemos perguntando exatamente isso. Um ao outro. E a nós mesmos.

Houve respeito.

Houve admiração.

Houve transparência — e transparência não é contar tudo. É não fingir que o que é, não é. É abrir a janela antes de a casa estar pronta. É dizer: há beleza aqui, mas há sombra também; se você entrar, entre sabendo que sou inteiro, não apenas o que brilha.

Toda possibilidade bonita também assusta. Não pelo que promete. Pelo que exige. E o que exige é pesado: exige que você não transforme o outro em remédio para a sua própria dor, nem em troféu para a sua vaidade, nem em fuga de você mesmo. Exige, sobretudo, que você apareça inteiro. Que não envie um representante mais apresentável.

E nós comparecemos.

Se um dia nós realmente ficarmos juntos, se um dia você me olhar e eu te olhar com aquela paz difícil das coisas finalmente reconhecidas, eu saberei que a nossa história não começou quando nos assumimos.

Isso foi só quando colocamos nome.

O sentimento não esperou pelo nome. O sentimento é mais antigo que o nome.

Começou antes.

Começou quando nenhum dos dois se negou.

Começou naquele "será?" que foi ficando, que foi perdendo a dureza e ganhando gravidade, menos medo e mais chamado — até que não era mais pergunta. Era resposta que ainda não havia dito seu nome em voz alta, mas que por dentro já havia dito, várias vezes, com toda a clareza das coisas que acontecem antes de serem autorizadas.

 E se o mundo perguntar como foi, talvez eu responda apenas isto:

Nós não nos apressamos a ter certeza. Nós tivemos a delicadeza de não fugir. Nós tivemos a coragem de viver a reticência.

Antes da certeza, houve delicadeza. Antes da resposta, houve a escuta. Antes do sentimento dizer seu nome, houve respeito pelo mistério.

Nós aceitamos.

E aceitar, descobri, não é passividade. É o ato mais ativo que existe. É dizer sim para uma coisa que ainda está nascendo, sem saber o tamanho que vai ter, sem garantia, sem rede embaixo.

É dizer: venha.

Sem saber exatamente o que vem.

Mas dizendo assim mesmo, para você.

Venha.






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